PETER BROOK

Posted: 31/08/2007 in LEITURAS INDISPENSÁVEIS

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Para o inglês, transformação nasce da superação do medo

Na opinião do dramaturgo Sérgio de Carvalho,

Brook é mestre do jogo do visível e invisível

Sérgio de Carvalho / Especial para O Estado de São Paulo

 

Assisti a um único espetáculo de Peter Brook, alguns anos atrás, no Bouffes du Nord, pequeno teatro de paredes vermelhas gastas, lindo porque mantido com as interferências do tempo, localizado numa esquina da Paris mais popular, bairro de imigrantes indianos e islâmicos, onde se chega após andar-se numa avenida sobre as linhas férreas e ver os trens da Gare du Nord.

Outros diretores preferiram recolher-se em recantos arborizados, nos parques de subúrbios, ou em cidades tranqüilas. Peter Brook, ao contrário, escolheu um teatro antigo enfiado num canto sujo e populoso da cidade.

Sobre o tablado do Bouffes du Nord, vi pela primeira vez a concretização da idéia de seu livro, a experiência da transformação do “espaço vazio“. Sem cenografia, adereços mínimos e figurinos neutros, mundos inesperados e contraditórios surgem compostos apenas por ações, gestos, sons e ritmos.

O que não se mostra é sugerido, o que não se é imaginado. O espectador é colaborador ativo do que aparece e desaparece no palco. Do ponto de vista do artesanato teatral, daquilo que constitui o conhecimento mais sutil como ofício, Peter Brook é um mestre deste jogo entre visibilidade e invisibilidade.

Da obra de Shakespeare, compreendeu seus movimentos internos. O que Brecht chamou de “matéria absoluta” e Brook entende como “a impureza“, única pureza possível do teatro. Feita da sujeira e do tumulto das relações entre os homens da cidade. O teatro das representações simples e dos sentidos complexos. Da tensão entre realidade e ficção. Um ator aponta o dedo para o alto e enxergamos a seu redor amplos espaços e descontínuos tempos da história.

No Bouffes du Nord assisti a Quem Está ?, um de seus trabalhos mais pessoais. Reflexão cênica sobre a representação de Hamlet, releitura que Peter Brook fazia da visão dos artistas que o influenciaram. Uma súmula do seu aprendizado como diretor. Montagem tão simples, direta e aberta que dava a muitos a impressão de que não havia peça, tamanha a solicitação imaginária ao espectador. Lembro de uma crítica cretina do Mauro Rasi em O Globo, dizendo que se tratava de um ensaio mal feito.

Para quem concebe os padrões narrativos da indústria cultural, para quem não se dispõe como sujeito livre produtivo diante de uma obra, a teatralidade anti-ilusionista de um teatro como aquele deve ser uma experiência incômoda.

Formado na dialética à maneira do Oriente, menos conceitual do que imaginativo, o teatro de Peter Brook foi aprendendo a reverter a negatividade do vazio em potência ativadora da cena. Tem algo do Lao-Tsé que encantou Brecht, algo dos degraus da “existência pelo nada” de Zeami, e também do realismo das ações transversas de Stanislavski.

Em suas viagens à Àfrica nos anos 70, em que os atores de seu grupo estendiam um tapete em praça pública e improvisavam a partir de pequenas situações que desencadeavam outras, ele ouviu de um mestre de cerimônias rituais que toda a força de um dançarino provém de sua capacidade de simplesmente olhar à frente e manter os olhos abertos.

Toda ação transformadora, nos diz o teatro de Peter Brook, é um superação do medo do vazio.

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